domingo, 12 de abril de 2009

O MEMORIALISTA E O RESGATE DE UM POUCO DA HISTÓRIA DE FORTALEZA


Fortaleza está comemorando 283 anos de fundação. Em meio a polêmicas sobre datas de aniversário da cidade, recebemos artigo do memorialista Luiz Edgard Cartaxo de Arruda Jr., sobre o tema. Confira:

"No apagar das luzes do ano passado, a Câmara Municipal e boa parte da midia lúcida gastaram tempo e espaços com matérias do mais alto valor sobre a formação da cidade de Fortaleza. Depois do recesso parlamentar, muitos edis prometeram voltar ao tema. O dia do aniversario de Fortaleza é 13, não é porque 13 é o número do PT, como querem desvirtuar alguns desatinados mal intencionados estreitos de fala grossa, dizendo que, em vez da Câmara Municipal e Prefeitura discutirem a data do aniversario da cidade, deveriam pensar em fazer viadutos e tapar buracos. Pois, segundo eles, pensar nisso é pura perda de tempo, é discutir o sexo dos anjos, dá relevância ao que não mercê, etc. Estão redondamente enganados, e enganando. É preciso não deixar passar nenhuma oportunidade para aprofundar, estudar, repensar, conhecer, discutir Fortaleza, sua cidadania aprender, reafirmar e concretizar a história da cidade com respeito à formação de sua geografia física e humana os caminhos e rotas que levaram a sua concretude. E claro ter seus pontos, marcos e ícones históricos delineados.

A data do aniversário de Fortaleza ser dia 13 de abril se deve ao fato do capitão-mor Manoel Francês ter apresentado ao infante dom João IV desenho singelo de uma vila no novo mundo da América. O Infante diante à visão do traço singelo do riacho Pajéu, fortim, pelourinho, arvores, igreja, câmara e cadeia, casario, palhoças, uma caravela na enseada do Mucuripe... Ficou tão embevecido e sensibilizado com o mapa que denominou a vila de Nova Lisboa. Não pegou.
Mas, é de grande significado esse "primeiro" nome europeu para Fortaleza e sua história: uma vila nesta esquina do mundo com o bonito nome nativo de Marajaitiba que significa rincão das palmeiras , "promovida" na pena do Rei a Nova Lisboa. Isso se deu a 13 de abril no ano da graça de 1726. Daí então o aniversaria de Fortaleza ser nessa data. Para referendar o consenso histórico disso, é bom lembrar retrato na parede da memória de 1968 pelo Centro Acadêmico de Arquitetura, cruzamento da avenida 13 de maio com avenida da Universidade. O desenho do mapa da vila de Fortaleza, feito em 1726, foi reproduzido no paredão do Museu da UFC. Portanto a imagem esta gravada no histórico do inconsciente coletivo de nossa cidadania. É o nosso primeiro “grafite".

Depois da ditadura militar de 1964 a 1985, atendendo convite do Governo - da Secretaria de Cultura do Ceará, através de Augusto Pontes, eu e Sergio Marques fizemos a maquete do desenho de Manoel Francês exposta no Museu do Ceara. É veiculada na programação da TV Assembléia e disputa salutarmente com o bode Yoiô o titulo de mais apreciada peça daquele equipamento. Se a memória da cidade desejar, podemos fazer a reprodução em maquete também da requintada pintura de Fortaleza, aliás "Siara", do celebre pintor holandês Frans Post, no Museu da Cidadania e ou Memorial de Fortaleza. Todo debate nas audiências públicas da Câmara Municipal, imprensa e Tvs sobre as origens e a formação de Fortaleza, nas casas, rodas e bares da vida, é de suma importância. Abre precedente para ampliar o conceito até do cerimonial da comemoração do aniversario de Fortaleza, da sua cidadania... Afinal, se a razão do dia 25 de julho (ninguém disse ainda que esse novo dia proposto para ser o aniversario de Fortaleza também seja número de partido político no caso o PFL, agora demo) de 1604, é as pedras que encontraram no morro da barra do Ceará. Elas já eram do conhecimento do gênio de Raimundo Girão que registrou lá até balas de canhão. Ninguém nega que o fortim existiu. Mas, sabem que não vingou. É só mais um ícone histórico.

O precedente é bom para vislumbrar a ampliação do estudo das comemorações da cidade. Se é para fazer anos a partir de um marco do processo civilizatório e, como dizem quanto mais velhos for melhor para o turismo e para a historia, então é fazer jus ao marco zero. Sendo assim, Fortaleza existe a partir de 3 de Fevereiro de 1500, quando o navegador espanhol Vicente Yanéz Pinzón, “o maior navegador de todos os tempos”, ergueu uma cruz de madeira no alto do Castelo Encantado na enseada do Mucuripe que, segundo Alencar, significa: Morro da Solidão. Onde Iracema ia derramar lagrimas de saudade do amado estrangeiro. Mais do que Mocó roedor, também pode ser traduzido como enseada da gargalhada. O certo é que o mais bonito dessa história toda é o comandante da nau Capitania "Nina" da esquadra de Colombo, Vicente Pinzón, deslumbrado do alto mar, ver retratado nas dunas a silueta de um "rostro hermoso" , onde fundeou ancoras no dia de Nossa Senhora da Consolação e assim deixou escrito nos seus relatórios. Hoje impossível de vislumbrar devido aos espigões de concreto que ocultam suas dunas e com elas o Rostro Hermoso que encantou Pinzón. Já o mapa mundi do Almirantado feito pela pena do grande Leonardo da Vinci sinaliza esse porto. E a palavra Mocuripe é a primeira expressão tupi na cartografia marítima do Eldorado na época das grandes navegações. Mais também a bem da verdade tudo isso não deixa de ser só mais um marco ou ícone e ponto histórico.

O dia do aniversario de Fortaleza é 13 de Abril por causa do Pajéu - da água "uma civilização se constrói a margens de rios", afirma Capistrano de Abreu. É doce a água do Pajéu, a do rio Ceará não. Fortaleza é antes um Refugio que um Forte. Para haver sequer esboço de cidade tem que haver mais que forte e soldados têm que ter civis, tem que ter mais que cruz, tem que existir missas. Devemos perceber a importância histórica e turística para Fortaleza do entendimento desse ícone marco civilizatório que é a cruz de Pinzon fincada no alto do Castelo Encantado. Atenção! Antes de Pedro Álvares Cabral chegar aos mares da Bahia e defrontar-se com o monte Pascoal a 21 de abril data do achamento do Brasil. Na busca por vestígios arqueológicos, voluntariamente ando fazendo excursões a fim de localizar ao menos um ícone, um dos pregos da cruz que Vicente Pinzon deixou aqui nos idos 1500, dois meses antes de Cabral avistar a Terra de Santa Cruz. Não tomou posse da terra impedido pelo Tratado de Tordessilhas.
Pinzon deixou a cruz na certa como paga a doce água que levou daqui. No cerne, é bom o propósito de fazer registro dos ícones e marcos e pontos históricos e geográficos da cidade. A Fortaleza marítima de Vicente Pinzon é um. Tem outro a Fortaleza açoriana conquistada por terra por um Capitão Mor do mato o exterminador de índios Pero Coelho. E na trilha também a Fortaleza dos jesuítas, padre Luis Filgueiras e padre Francisco Pinto em 1607. Antes de todas à Fortaleza Marajaitiba. Depois a Fortaleza com George Gartmam, Hendrik Huss em 26 de outubro de 1637, em 1641, os holandeses foram substituídos por Gedion Morris, que trouxe o pintor Franz Post para pintar o rostro hermoso de Vicente Pinzon? Fortaleza se concretiza com Companhia das Índias Ocidentais do holandês Mathias Beck é a Fortaleza protestante calvinista e flamenga.

Referencias mais antigas os navegantes guerreiros Vikings estiveram nestes verdes mares bravios deixaram inúmeras inscrições rupestres nos monólitos da terra da luz. Assim como ficaram também de testemunho as inscrições dos antigos comerciantes e navegantes fenícios do hoje Líbano. Para não falar da passagem das naves chinesas que aqui estiveram e a prova é o DNA de algumas tribos indígenas daqui, similares a dos amarelos. Afinal sim aqui é realmente a esquina do mundo. A de vangloriar a convergência de ventos e correntes marítimas, que abrigaram nessa esquina a raça de ouro dos náufragos sobreviventes do Continente perdido de Atlântida, menciona alfarrábios e lendas encontradas por Capistrano de Abreu. Seus descendentes são os cabeças chatas de hoje. Fizeram esse porto de nômades, aventureiros, retirantes, viajantes, conquistadores desse imenso Brasil de norte a sul, do Paraguai ao Acre e digo mais se um terço (1/3) tivesse sobrevivido a seca, haveria mais cearenses que japoneses espalhados por esse mundo de meu deus. Daqui fomos ocupar o Paraguai, povoar o sul, construir Brasília a ponte Rio Niterói a Transamazônica... E São Paulo para alguns é a maior cidade do interior do Ceará.

Não é só a Fortaleza de 13 de abril ou 25 de julho que merece marco. Também a de 10 de abril de 1649, do engenheiro Ricardo Caar que fez o forte de Shoonenborch na foz do Pajéu. Assim como a Fortaleza de Martins Soares Moreno em 20 de Janeiro de 1612 com seus inúmeros fortes. O Forte de São Sebastião no mesmo lugar do Forte de São Tiago. A Fortaleza Refugio acolhendo os que escaparam da Confederação dos Karriris. A Fortaleza de 17 de março de 1823 denominada pelo Império de Nova Bragança, também não pegou. A Fortaleza atrelada ao Grão-Pará, ao Maranhão e Pernanbuco... E a dos reinos de além mar com bandeiras de todas as cores, até as sem pátria dos 7 mares preta e branca das tíbias e caveira de corsários e piratas nas areias de Iracema foram fincadas.

Há muitas leituras para o cerimonial da história da capital do Ceará e podemos falar até da Fortaleza da Liberdade por Dragão do Mar o primeiro porto livre dos grilhões da escravidão na América abaixo da linha do Equador é o porto de Fortaleza, retratada na magnífica estatua colosso sobre o portal do Parque da Liberdade esquecida pela historia, apagada da memória pela Cidade da Criança. É outro dia 25, que deve ser resgatado só que esse março é de 1884 e fruto de uma greve vitoriosa pela liberdade do homem liderada por Francisco Jose do Nascimento codinome Chico da Matilde vulgo Dragão do Mar. É a razão primeira para Fortaleza ser chamada de Terra da Luz. Há outra Fortaleza Libertária justamente um século antes da revolução russa de 1917 seguida pela Confederação do Equador de 1824 que destronaram o Império de Portugal desse chão sagrado. A Fortaleza aprisionada com Barbara de Alencar. A Fortaleza Confederada do Equador republicana e fuzilada de Tristão Gonçalves, padre Mororo, Carapinima, Pessoa Anta... cujos sobreviventes seguiram Abreu Lima para forjar os ideais de Simon Bolivar.
E existem inclusive Fortalezas que não são belas a Fortaleza da peste do dia dos mil mortos, A Fortaleza dos campos de concentração dos flagelados da seca... A Fortaleza prostituída pela guerra com os norte americanos e suas garotas coca-colas. A conhecida Fortaleza hospitaleira. E a Fortaleza migrante eterna pelo êxodo de retirantes, errantes libertários tangidos pelo sol, visionários famintos de toda sorte, por todo o mundo, de todo jeito.

Tem a Fortaleza da 1ª Academia Literária brasileira. Fortaleza da Belle Epoque, da Padaria Espiritual, que décadas antes da filha bastarda e antropofágica Semana de Arte Moderna de 1922, degustava em fornadas literárias o sublime pão da sabedoria nos Cafés da Praça do Ferreira. A Fortaleza ocupando em guerra o Paraguai levando a bandeira do 26 até a batalha de Aquidaban onde perdeu a vida Solano Lopés. A mesma Fortaleza de outras bandeiras desbravadoras, expansionistas ocupou o Norte fazendo o Acre. A Fortaleza ocupada pelos messiânicos do Pe. Cícero. A Fortaleza onde se aquartelou forças que destruíram com bombardeio aéreo (usado pela primeira vez contra civis) a comunidade igualitária do Caldeirão. É por essas que Santos Dumont suicidou-se. A Fortaleza do povo revoltada que derrubou a oligarquia Acioly e destruiu belos jardins que ainda hoje não foram recuperados. A Fortaleza na ll Grande Guerra com a mais numerosa das forças da FEB e com o maior número de baixas às do nosso exercito da Borracha que movia a vitoria do Exercito Aliado contra as forças do Eixo e de quebra ocupava a Amazônia.

Se você quiser, até há uma Fortaleza aérea com o ultimo vôo de Antoine de Saint-Exupéry autor do Pequeno Príncipe e o vôo de Pinto Martins o primeiro que cruzou o equador para não falar de Antonio Justa que fez o helicóptero. E uma Fortaleza alegre, faceira, brejeira e moleca que vaiou o sol nessa terra da luz, em plena guerra mundial. Graças que há muitas datas em Fortaleza para acalentar esse ufanismo sadio. Discuti-las, revive-las é o que faz renascer, fortalecer e sedimentar e engrandecer nossa consciência histórica e cidadã.
Vamos em frente, que atrás vem gente.
Luis Edgard Cartaxo de Arruda Jr.
Memorialista

3 comentários:

Dioneide Costa disse...

Excelente artigo.
Dioneide
Boa semana.

Gervasio do Crato disse...

E quem é que tem tempo de ler um artigo tao longo como esse do Luis Cartaxo? Égua, macho! Além disso, ele escreve num estilo que dá nó no juízo da gente. Faz isso nao, Luis Arruda. Escreve pro mode o povo assuntar, macho, pois quem nao é capaz de assuntar após a leitura de um artigo tao longo como esse é porque nao entendeu da missa um terço. Abraço, Gervásio do Crato

Rafael Tomyama disse...

Parabéns ao nobre escritor Arruda Jr. pela primorosa memória da Fortaleza de todas as fortalezas: formosa, acolhedora, resistente e irreverente...